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Cultura amazônica milenar é resgatada
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Cultura do barro repassada por índios que viveram na região Oeste do Estado do Pará sobrevive nas comunidades remanescentes de quilombolas


No extremo oeste do Pará, no meio da Amazônia, uma tradição sobrevive aos tempos. É preciso pedir permissão à mãe natureza e oferecer algo em troca, tal como um cachimbo ou uma panela, ambos de barro. Estamos falando dos ceramistas que vivem em algumas comunidades ao longo Rio Trombetas, no município de Oriximiná.

Os remanescentes quilombolas daquela região fazem uma prece à mãe natureza antes de retirar a argila do solo. Durante o ritual, é rezado uma ave-maria e um pai nosso, juntamente com a promessa de que, daquela argila, também será feito a peça para dar de presente à natureza.

Essa tradição, repassada por gerações e gerações, foi ensinada aos escravos fugitivos pelos índios que viviam ali, há milhares de anos. Uma cultura que quase se perde com o surgimento de utensílios domésticos mais modernos, como panelas e copos de plástico, uma vez que a prática começou a ser vista de forma pejorativa pelos moradores da região, que sentiam vergonha de usar utensílios de barro.

O resgate dessa cultura se deu através de projeto realizado pelo Museu Paraense Emílio Goeldi em parceria com a Mineração Rio do Norte (MRN), empresa produtora de bauxita da região, que incentivou a produção de cerâmica nas comunidades Moura e Boa Vista, no Rio Trombetas.

Por meio do trabalho dos técnicos do museu, os quilombolas não só voltaram a produzir peças que na infância moldavam com seus pais e avós, como também reconheceram a importância histórica e cultural que isso tem para que eles preservem sua identidade. O grupo, que começou com três pessoas, conta hoje com 40 ceramistas, que participam do Projeto de Educação Ambiental e Patrimonial (PEAP) do Museu.

“A vovó fazia panela de barro, prato de barro. Cada um de nós tinha o nosso prato e a gente comia normalmente no prato de barro. Depois, a gente sentiu vergonha de fazer, mas eu sempre digo que essa nossa cultura, pra nós, estava sendo um tesouro escondido, porque a gente sabia fazer, mas tinha vergonha de mostrar”, relembra a ceramista Zuleide Viana dos Santos, 53 anos, moradora da comunidade Boa Vista.

Resgate - O coordenador do projeto do Museu, Luiz Fernando Videira, lembra que convencer as comunidades a voltar a fazer as peças não foi tarefa fácil, pois eles consideravam o costume uma “coisa de índio”. “Nós percebemos que havia três pessoas que faziam cerâmica na comunidade, mas que tinham vergonha de fazer. Uma não fazia mais porque dizia que aquilo era coisa de índio. Outra não fazia porque se sentia desestimulada, ninguém dava valor”, conta Luiz.

Além disso, havia muita desconfiança da comunidade, que achava que aqueles pesquisadores estavam ali apenas para retirar peças arqueológicas. Tudo mudou graças a uma panela de barro. “Certa vez eu estava passeando pelo quintal da casa de uma pessoa e vi uma panela de barro no chão. Eu perguntei se tinha sido ela que tinha feito, ela disse ‘não, foi minha mãe, que morreu há mais de 40 anos’. Eu disse, ‘pôxa, sua mãe morreu há mais de 40 anos e uma peça que sua mãe fez está jogada no fundo do quintal’. Isso mexeu com ela, porque era uma lembrança que estava sendo desprezada”, lembra Luiz. “A conversa comoveu tanto a pessoa que, da outra vez que visitei a comunidade, a panela já estava guardada no armário”, completa.

Segundo Videira, o próximo passo foi incentivá-las a dar aulas para crianças e, posteriormente, estimulá-las a produzir cerâmica. Mas ainda havia um detalhe a ser superado. “Fomos queimar as peças. E, para a surpresa deles, todos as peças quebraram”, relata Luiz. De acordo com coordenador, para que o trabalho desse certo, faltava justamente aquilo que por muito tempo foi renegado pelas ceramistas: a tal “coisa de índio”.

Numa conversa com algumas moradoras antigas das comunidades, os pesquisadores observaram que, na composição da peça de cerâmica deveriam entrar, além da argila, alguns elementos que as populações indígenas usavam para fazer as peças, como o cariapé (uma espécie de casca de árvore) e o cauixi (esponja de água doce). Esses materiais é que dariam resistência suficiente para que as peças não quebrassem.

Orgulho – A partir da nova descoberta, as ceramistas começaram trabalhando com peças utilitárias de cozinhas. Hoje, elas já inovam, criando vasos e pequenos animais, dentre outras peças. Além do resgate cultural, o trabalho gera renda para esses profissionais e se destacam em mostras e eventos.

Mas toda a exposição, e também o fato do projeto gerar renda, não deixa em segundo plano o principal objetivo que é o resgate da arte de fazer cerâmica, especialmente contando com a herança deixada pelos indígenas. Zuleide Santos conta que mora em cima de um sítio arqueológico, onde é comum encontrar cacos de cerâmicas feitas pelos índios que habitaram o local há milhares de anos. Segundo ela, como as peças estão em pequenos pedaços, não é possível reconstruir o mesmo objeto de onde o caco se originou. Mas os artesãos usam a imaginação e produzem um objeto novo a partir do velho. Um caco que se parece com uma garra de onça, por exemplo, acabou virando pelas mãos de Zuleide a alça de um vaso.

“O contato com a cultura do barro também estimula a preservação, por parte dos moradores, das peças de cerâmicas arqueológicas encontradas em grande quantidade nessas comunidades, que ajuda a resgatar os laços com o passado e manter viva essa arte”, comenta Ademar Cavalcanti Silva Filho, Gerente de Saúde, Segurança, Meio Ambiente e Relações Comunitárias da MRN.

Se depender do orgulho que foi retomado pelos ceramistas das comunidades do Rio Trombetas, a “coisa de índio” que estava quase sendo esquecida ainda vai perdurar por muitas gerações. “Quando o Museu chegou resgatando essa nossa cultura, a gente pensou que, se tivesse um barro, a gente saberia fazer as peças. Quando a gente entrou no projeto para trabalhar, a gente se lembrava de como os nossos avós faziam e hoje já tem vários meninos que tentam fazer (cerâmica) na comunidade, até mesmo os meus netinhos”, explica Maria do Carmo de Jesus, 48 anos, moradora da comunidade do Moura.

O projeto - Luiz Videira, do Museu Goeldi conta que o Cultura do Barro é só uma das vertentes do Projeto de Educação Ambiental e Patrimonial (PEAP), desenvolvido pelo Museu nas comunidades do Rio Trombetas. O objetivo do projeto, que anualmente investe R$ 220 mil nas ações, beneficiando cerca de 1.500 pessoas, é desenvolver ações educativas junto a essas comunidades e destacar a importância da preservação do patrimônio ambiental e cultural da região.

Os outros dois programas dentro desse projeto são o Barco da Ciência, que promove ações educativas no Lago do Batata, também no Rio Trombetas, e o Clube do Pesquisador Mirim, que estimula o interesse pela história entre os alunos de Ensino Fundamental da região.

História- Há mais de 160 anos, escravos deram início a um movimento de fuga de fazendas localizadas nos atuais municípios de Óbidos, Aveiro, Faro, Alenquer, Monte Alegre, Santarém e Oriximiná, no Oeste do Pará. Eles refugiaram-se principalmente nas cabeceiras de rios encachoeirados, como o Trombetas, afluente do rio Amazonas. Após a Abolição da Escravatura, esses quilombos foram, pouco a pouco, descendo o rio, fato que deu origem a 33 comunidades de remanescentes de quilombolas, que atualmente totalizam seis mil pessoas.

Glossário:

Cariapé: casca de árvore que depois de queimada é transformada em cinza e moída para ser adicionada ao barro, tornando a peça de cerâmica mais resistente.

Cauixi: espongiário (animais constituídos de muitas células), de água doce, que depois de moído é usado como antiplástico no vaso para se fazer uma peça de cerâmica resistente.

Antiplástico ou tempero: ingrediente que é acrescentando ao barro para dar consistência à cerâmica, evitando que ela se quebre facilmente.

 

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